Passei uma noite, numa cadeira, ao lado de uma maca-cama, acompanhando um paciente, na emergência de um hospital. Foi só um grande susto, nada grave. Quem acompanha ou já acompanhou alguém em situações como essa deve ter percebido a frieza de enfermeiros e médicos. No começo, me assustei com a falta de envolvimento, conversa e interação deles com os pacientes. Aos poucos, vi que essa indiferença faz parte do ambiente.
Algumas horas ali, gritos, sangue, sofrimento, tristeza, deixam de ser espanto. O lugar te absorve. Os profissionais de saúde são adaptados aquilo, e tratam tudo com naturalidade e frieza, incluindo as pessoas. Não tem papo. Fazem a triagem, esperam pelo doutor, que orienta, e pronto. Paciente e acompanhante ficam por si, testemunhando o vai-e-vem da noite.
Chega de tudo em noite de fim de semana: bêbado, criança, idoso, baleado. Até que neste domingo, tirando entre 22h e 23h30min, o movimento foi moderado. Sendo hospital público, única opção em cidade de interior, ricos e pobres disputam espaço na democrática emergência, sendo separados pela possível internação, pois uma minoria tem direito a apartamento.
Percebi que, na emergência, é cada um por si, conforme a gravidade, claro, e um médico por todos. O atendimento foi bom, apesar do desespero inicial, diante da frieza e da falta de organização. O espaço é disputado, você escuta enfermeiro reclamando, médico reclamando, paciente reclamando, vê a falta de equipamentos, de maca a cobertor.
A noite fria começou com muita gente, barulhada; depois veio desacelerando; passou pelo silêncio, entrecortado por gemidos e andanças isoladas; até chegar a movimentada manhã. Saí entendendo a frieza e o estilo “piloto automático” dos plantonistas, características daquele lugar. Porém, é bem mais confortante, naquele momento de dor, ser atendido por alguém mais humano, aparentemente interessado, o que também pude ver lá, em menor dose.

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